Filósofo e pesquisador político Fabiano de Abreu analisa o resultado das eleições 2018 no Brasil
Fabiano de Abreu dá um parecer sobre o que aconteceu no primeiro turno das eleições no Brasil no âmbito federal e estadual e afirma que o pleito de 2018 entrará para a história.
Fabiano de Abreu dá um parecer sobre o que aconteceu no primeiro turno das eleições no Brasil no âmbito federal e estadual e afirma que o pleito de 2018 entrará para a história.

Créditos do fotógrafo MF Press Global

Hebert Neri Por Hebert Neri 09/10/2018
    Compartilhe:

A primeira fase, chamada primeiro turno, das eleições no Brasil foi marcado por uma polarização jamais vista naquele país desde a redemocratização, após o período de ditadura militar que durou até 1984, alimentada por uma alta voltagem passional, com lados opostos e altamente militantes.

A surpreendente evolução das candidaturas ao longo da campanha revela uma eleição histórica, sem precedentes, com pesquisas eleitorais que erraram de forma grotesca suas previsões , e o povo deixando um recado aos políticos nas urnas, com a renovação de boa parte dos quadros políticos, a excluir do rol de eleitos fora nomes consagrados da política brasileira como Eduardo Suplicy (PT), Romero Jucá (MDB),  Lindbergh Farias (PT), a ex presidente Dilma Rousseff (PT), dentre tantos outros.

O pesquisador político, filósofo e jornalista paivense Fabiano de Abreu fez uma análise desse momento de mudança vivido pelo país e aponta com base em suas pesquisas os rumos que a política deve tomar daqui em diante: “as eleições de 2018 já são consideradas históricas. É nítido que o brasileiro deixou seu recado nas urnas, contra a corrupção e a favor da operação Lava Jato. Nota-se que o eleitor brasileiro não é tão ingênuo como se supunha. Achar que o Brasil é formado de uma massa ignorante já não pode mais ser tomada como verdade, pois o resultado das urnas mostra uma população mais politizada, e cada vez menos influenciável pela mídia, que tem procurado pensar e formar juízo e opinião por si mesmas. O que vimos é que a chamada “massa de manobra” representa cada vez mais uma parcela menor da sociedade”.

A grande surpresa dessa eleição, o candidato a presidência Jair Bolsonaro (PSL), ora chamado de “Trump brasileiro”, tem sido chamado de nazista, machista, fascista e homofóbico. Fabiano de Abreu acredita que existe um motivo para tudo isso: “todas essas acusações, que procuram desmerecer o outro lado, são muito comuns em período eleitoral. O oponente precisa descredibilizar e desconstruir a imagem do outro candidato. Contudo, no caso de Bolsonaro, essas acusações surgem, em sua maioria, de pessoas e movimentos ligados ao PT e seus “partidos-satélites”. Apesar disso, essas acusações baseadas em declarações do candidato ou muito antigas, de 1999 por exemplo, ou atuais tiradas de contexto, não explicam como, por exemplo, o candidato Hélio Negão, conhecido como Hélio Bolsonaro, elegeu-se pelo PSL com apoio de Jair Bolsonaro, como deputado mais votado do estado do Rio de Janeiro, com quase 350 mil votos. Tal lógica também não é capaz de explicar como Janaína Paschoal, advogada que ganhou destaque nacional ao protocolar pedido de impeachment de Dilma Rousseff, elegeu-se como a mais votada da história da redemocratização, com 2 milhões de votos, também com apoio de Bolsonaro e pelo mesmo partido. É preciso analisar e separar o ideológico do factível”, afirma Fabiano.

Para o filósofo, o fator primordial para a virada no pleito desse ano foi a questão da violência: “candidatos com plataformas de combate feroz à violência estão a crescer seus números nas urnas. As pessoas acreditam que candidatos como Bolsonaro, que tem discurso agressivo de combate a violência, são o que o Brasil precisa no momento, e por isso tais candidatos, impulsionados pela onda Bolsonaro, receberam apoio popular: porque as pessoas estão cansadas. A forma como o candidato colocava raiva nas suas palavras é semelhante a raiva que a população sente de estar tão vulnerável, de não poder comprar as coisas que quer, como um celular melhor, uma jóia, um acessório, com medo de assalto, ou até mesmo de ser morto. Este é um dos itens que explica a ascensão dos candidatos que embarcaram nesse tipo de discurso, junto com Bolsonaro”. 

Fabiano aponta também outra surpresa: apesar do movimento #EleNão, que contou com apoio maciço de artistas e da mídia, o candidato cresceu numéricamente entre mulheres e o público LGBT: “surpreendentemente, parte considerável do público LGBT também votou no Bolsonaro, no sentido contrário às alegações feitas sobre o candidato, de ser preconceituoso e homofóbico. Já o candidato Jean Wyllys, historicamente alguém que se intitula defensor da causa LGBT, só recebeu 24 mil votos e quase não consegue se eleger, se não fosse a expressiva votação no candidato Marcelo Freixo, do mesmo partido, PSOL, que acabou “carregando” o candidato Wyllys de carona em sua votação. Esses dados não podem ser desprezados,  pois mostram que a maior preocupação de uma considerável parcela desse segmento é a questão da segurança e dos escândalos de corrupção e excessos dos governos anteriores no desfalque a estatais e aos cofres públicos, muito mais do que pautas ideológicas, como a questão da ideologia de género. 

O pesquisador também salienta que o PT perdeu milhões de eleitores em seus redutos mais tradicionais, o que sinaliza um maior desejo da população por renovação política: “Note que Bolsonaro quase foi eleito no primeiro turno, então precisamos entender os fatos. O Nordeste fez toda a diferença nessa eleição, votando em um candidato que alia-se mais a questões históricas e ideológicas dessa região. Contudo, o PT perdeu mais de 5 milhões de votos no Nordeste do Brasil, o que mostra que até mesmo redutos clássicos e tidos como certos do PT estão cansados das mesmas promessas, dos mesmos rostos, e dos mesmos problemas. As pessoas não querem que o Brasil vire uma nova Venezuela”. 

“Sobre a questão ainda da corrupção, temos uma questão importante: Fernando Haddad está a ser denunciado pelo Ministério Público Federal por lavagem de dinheiro, corrupção e crimes diversos na esfera administrativa, semelhante ao ex-presidente Lula, a quem ele representa como um “poste”, da mesma forma que a ex-presidente Dilma Rousseff foi. Assim, existe o risco real de Haddad, caso eleito, sofrer um processo de impeachment, dadas as denúncias. Caso isso ocorra, tem-se Manuela D’avila, que representa a extrema esquerda, filiada ao PC do B, comunista e também auto declarada atéia, como presidente. Muitos empresários brasileiros tem se manifestado contrários a uma comunista no poder, e me procuram manifestando desejo de sair do país caso a chapa Lula-Haddad-Manuela vença as eleições”.

Fabiano conclui sua análise com um panorama da atual conjuntura política brasileira: “ Precisamos ser imparciais, e buscar o melhor interesse da nação em todos os aspectos. De nada adianta o voto por alinhamento ideológico, se não houver avanço nas áreas comuns a todos, como economia, segurança pública, pleno emprego, educação e saúde. Apesar de discordâncias de pensamento e postura, as pessoas precisarão analisar qual dos candidatos tem maior possibilidade de promover o bem comum e a retomada do crescimento dentre as opções apresentadas. Infelizmente, muitas pessoas querem votar apenas em suas convicções ideológicas, de forma egoísta, ignorando os escândalos de corrupção, e a crise provocada pela má gestão dos governos anteriores. Existe hoje um público mais “anti” algum candidato ou ideologia do que efetivamente preocupado com a situação do Brasil no que tange a segurança, economia e corrupção. É preciso rever isso”. 

Comente com o facebook

Publicidade